De como filosofar é aprender a morrer, segundo Platão

- Opa, Platão, tudo bem? Estava conversando com um amigo teu e ele me disse que você tem uma teoria de que filosofar é aprender a morrer. Será que você poderia me explicar por que?

- Bem, para chegar lá precisamos começar de um ponto anterior. Olhando ao nosso redor podemos notar, como já foi dito por Heráclito, que tudo ao nosso redor está em constante mudança, sempre se criando e se destruindo, não concorda?

- Sim, claro.

- E, mais do que isso, nada que está neste mundo dura para sempre. Agora, você diria que algo como o Belo ou o Justo são coisas em constante mudança?

- Mas claro que não, nobre Platão.

- Sim, claro que não. E o mesmo se dá com muitas outras coisas do mesmo gênero. Podemos colocar, então, que todas as coisas em si, que são imutáveis, não podem ser alcançadas neste mudo sensível, usando-se das nossas sensações. Sendo assim, como poderíamos alcançá-las? Bem, isto é simples, podemos alcançá-las utilizando o raciocínio, não?

- Nada mais claro.

- Bem, se estas podem ser alcançadas somente via raciocínio, então elas se encontram no mundo inteligível. E digo mais: se elas não podem ser alcançadas via o sensível, as sensações nada mais fazem do que nublar nossa mente e atrair a atenção para coisas que não são importantes.

- Mas, antes de continuar, me esclareça uma coisa: o que são estas coisas em si, de que você fala?

- Ora, estas são os conceitos. Por exemplo, este sapato que usas é um exemplo de objeto sensível: ele pode ser destruído, quebrar, ou até mesmo não exercer bem sua função caso seja mal construído. Agora, o sapato em si, o conceito de sapato, não pode ser destruído: enquanto e na medida que este sapato sensível participa do conceito de sapato ele pode ser assim chamado, mas quando isto não mais ocorrer (se o triturarmos, por exemplo) ele deixará de ser chamado sapato, mas o conceito de sapato não deixará de existir. Mas vamos deixar de lados estas coisas e nos focar nos conceitos mais importantes: o Belo, o Justo, o Bem e assim por diante.

- Ora, nada mais justo – com o perdão do trocadilho. Mas, diga lá, Platão, esta não é a Teoria das Ideias, a que te atribuem?

- Sim, claro, é exatamente disto que a Teoria das Ideias trata, apesar de que ela está mais para uma hipótese do que uma teoria. Mas, se seguirmos por este caminho, o diálogo vai se estender por demais.

- Sim, verdade. Mas, então, me explique: o que isto tem a ver com a morte?

- Você concorda que, após a morte, nossa alma está livre das sensações?

- Sim, não poderia ser de outra maneira.

- Ora, se não conseguimos ter acesso às coisas em si enquanto estamos no mundo sensível, após nossa morte, quando a alma se separa de nosso corpo, ela pode, livre das sensações, ter acesso a fonte de todas as verdades. Agora, tu vais me perguntar se a alma vive após a morte do corpo?

- Não, não, me recordo que esta questão já foi tratada anteriormente. O que eu gostaria de te perguntar é o seguinte: se, após a morte, temos acesso a todas as verdades, então nada temos com que nos preocupar nesta vida e, ainda mais, filosofar ou não filosofar não é a questão.

- Muito você se engana neste ponto, meu amigo. Não é necessário apenas morrer. Antes disso devemos nos preparar, fazendo a alma se desapegar do corpo e desenvolver um amor pela sabedoria. Devemos, deste modo, purificar nossa alma. Caso contrário, a alma, após a morte, vai tentar se apegar ao mundo material e pode acabar, como muitas outras, assombrando os cemitérios.

- Faz bastante sentido.

- Mas, diga-me, e como você diria que purificamos nossa alma?

- Fazendo filosofia?

- Sim, devemos constantemente contemplar, buscar a verdade, sempre com moderação e não se apegando aos prazeres do corpo. Isto é o que um verdadeiro filósofo faz.

- Mas, Platão, se assim o é, após filosofarmos, não bastaria tirarmos nossa vida para, desta maneira, nos aproximarmos deste mundo de verdades mais rapidamente?

- Veja bem, não concordas que estamos aqui por causa dos deuses e por causa disso, de certa maneira, somos propriedades destes?

- Sim, verdade.

- Se assim o é, não dirias que, se nos suicidarmos, estaríamos negando a vontade dos deuses, e mais do que isso, poderíamos atrair a ira destes se assim o fizermos? Se você fosse dono de uma criatura e esta se matasse, você gostaria?

- Não, claro que não. Isso faz muito sentido. Muito obrigado por me esclarecer neste assunto, Platão.

- Antes que você parta, você reparou uma consequência deste pensamento: se durante toda a nossa vida nós buscamos a verdade e nos preparamos para esta, quando a morte se aproxima não devemos temê-la, mas sim ficar felizes pois finalmente chegaremos ao local para o qual nos preparamos a vida toda?

- Verdade, isto é uma consequência do pensamento. Porém isto é mais fácil falar do que fazer...

E com isto o visitante deu adeus e foi para a sua casa, preparar o jantar, pois já estava anoitecendo.


Referência

PLATÃO. Fédon. __________. Diálogos. Col. Os pensadores. Trad. José Paleikat. São Paulo: Abril, 1972, p.61-132.

Meus agradecimentos a Jucelaine, ao Thiago e ao Nazareno por revisarem este texto.